Cartilha anti-corrupção: pegue a sua!

A juventude está se rebelando. Não suporta mais a impunidade, não quer mais fechar os olhos para o que se passa por baixo dos panos. Não quer mais manter os braços cruzados diante destes senhores, com seus ternos bem-cortados e discursos complicados, que detêm o poder de decidir o destino daqueles que se arrastam, imploram, sobrevivem.

Lembro-me da imensa quantidade de comentários, vídeos e matérias que circularam pela rede na época das eleições, parecia ser o único assunto a ser discutido, como se, por um momento, nada mais importasse. E os que não se ocupavam com isto, não cumpriam seus deveres como cidadãos. Foi naquela época que escrevi a cartilha, e como não tinha blog, ficou na gaveta.

Com o envolvimento da nova geração em um tema que, até pouco tempo, era coisa de gente velha e chata, senti que esse seria o momento ideal para abordar o assunto. A juventude tem um desejo imenso e força imensurável para mudar o mundo, e eu dedico esta cartilha a você, que quer se envolver com a causa, e, quem sabe, até fazer uma diferença.

Mas o assunto, de novo, não tem nada. O tema aqui tratado compõe um dos fundamentos da nossa sociedade, e ainda sim, sabemos pouco sobre ele. Quando começou, da onde vem, de quem a culpa? Eu não sei. Mas a corrupção no Brasil espalhou-se como uma lata de lixo tóxico despejado em um rio de águas puras. Começa em um canto e espalha-se de tal maneira que é quase impossível saber onde ainda está limpo, e se ainda há um lugar limpo.

Aqueles que querem ajudar a limpar este rio o podem fazê-lo de diversas maneiras. Hoje irei dividir com vocês 5 pontos (que estão longe de serem os únicos) que considero de extrema importância, e que devem ser levados em conta por aqueles que desejam ajudar a construir uma sociedade mais justa.

1)      A palavra “corrupto” não é necessariamente seguida da palavra “político”, ou vice-versa. Os políticos são corruptos também. A corrupção corre nas veias do povo brasileiro, faz parte da nossa cultura e está por todos os lados. A própria política é um exemplo disso. Na maioria dos países, inclusive no primeiro mundo, existem ou já existiram casos de corrupção. Mas no Brasil, ela é parte intrínseca do sistema. Por quê? Quem são os políticos? Podemos dizer que nossa democracia está impregnada por pequenos grupos privilegiados, representantes da elite, e por aí vai. Mas um sistema democrático é muito mais do que isso.

No quinto maior país do mundo, temos uma enorme diversidade de grupos sendo representados politicamente. Uns vem de classes mais altas, outros de mais baixas, outros são conservadores, elitistas, outros libertários, esquerdistas, verdes, comunistas, sociais, etc. Uns tem mais poder, outros menos. Uns lutam por espaço, outros são populares. Mas todos representam a nossa política, e cada canto dela está manchada. Se encontramos casos de corrupção em tantos diferentes grupos sociais, étnicos, regionais…creio que o problema não esteja na política, e sim no povo. Povo que elege e é eleito.

 

2)      Cuidado com nomes bonitos. Um bom exemplo é o tal “acordo” que muitas pessoas fazem com seus empregadores ao deixarem seus empregos. A palavra “acordo” soa muito bem, mas nada mais é que um nome bonito para “golpe”. O tal “acordo” é um esquema de falsificação de documentos para obtenção de um benefício público que, de acordo com a lei, você não tem direito. O benefício existe para suprir necessidades urgentes e de subsistência para pessoas que se encontram repentinamente sem emprego, e não para fazer investimentos, viagem dos sonhos ou dar entrada num carro. Você pode achar que a sua parcela de culpa é pequena, mas unido aos outros colegas que fazem o mesmo, geram um prejuízo anual de bilhões de reais para os cofres públicos (valor suposto por mim). Quem paga por este prejuízo? O contribuinte, que tem seus impostos elevados e seus serviços negligenciados por falta de verba, entre elas, o sistema público de saúde. Quem nunca se revoltou ao assistir uma matéria sobre o sistema de saúde precário, quando o cameraman faz um close na expressão de sofrimento dos moribundos espalhados pelos corredores da Santa Casa de uma cidade remota no interior do Nordeste?

“Políticos malditos! Com suas fazendas, mansões em Miami, helicópteros e contas bancárias em paraísos fiscais, enquanto nosso povo sofre, passa fome e morre aguardando atendimento médico!”. E é verdade. Mas quem se lembra de culpar os cidadãos que roubam dinheiro público? Pessoas que falsificam notas fiscais para lucrar com o sistema público de licitação, que inventam ou até cultivam doenças para receberem aposentadoria por invalidez, ou funcionários públicos, que por saberem que nunca podem ser demitidos, trabalham como lesmas em leito de morte, faltam ao trabalho metade do tempo, fazendo com que seja necessária a contratação de cinco vezes mais força de trabalho do que seria normalmente necessário. E por favor, não venha me dizer que isso gera empregos. Tem muita coisa aí precisando ser feita, e se for para gerar empregos, que seja para fazerem algo útil, e não para sentarem em uma cadeira comendo rosquinhas, enquanto eu e você pagamos o seu salário.

 

 3)      Acha caro? Não tem dinheiro? Fique sem. Roubar sinal de TV a cabo, comprar filmes piratas e fazer download de músicas são coisas bizarras. Quem você pensa que é para querer que outras pessoas trabalhem para você de graça? Alguma vez você já contratou um eletricista, e no final do serviço, disse que não estava a fim de pagá-lo? Então o que lhe faz pensar que todas as pessoas envolvidas no complicado processo da produção de trabalhos artísticos, ou na instalação e manutenção de cabeamento e transmissão por todo o país não merecem ser pagos pelo seu trabalho? A grande verdade leitor, é que você não liga pra isso. Se não fosse sofrer ação judicial (ou talvez tomar um pau), também não pagava o eletricista. Música, filmes e sinal de TV e internet estão ao seu alcance, e você os pega. Porque você é corrupto. Além disso, ao fazer isso, você sustenta toda uma rede criminosa, sendo, em parte, responsável por sua existência, e pelo mal que fazem à sociedade.

Estou enganada? Você acredita que estes produtos deveriam estar ao alcance de todos democraticamente? Não concorda com os altos lucros das indústrias, acha que se aproveitam dos consumidores? Então organize as suas idéias, apresente argumentos pertinentes e saia às ruas em luta pela sua causa. Eu mesma tive um acesso de raiva quando me dei conta de que toda a minha coleção de filmes originais não funciona aqui na Alemanha, devido ao bloqueio por regiões, coisa que considero um crime. Paguei pelas obras, mas não posso usufruir as mesmas. Amigos que fazem download ilegal de seus filmes não tiveram este problema, e até riram de mim. Mas lembre-se: usar estes argumentos como justificativa para roubar, o transformará em nada além de um corrupto com uma desculpa, como todos os políticos de quem você fala mal.

 

4)      Responda pelos seus erros. O que você acharia se soubesse que um ladrão está solto por ter subornado um policial? Provavelmente que, por culpa da corrupção destes, a rua ficou ainda um pouco menos segura para você, certo? Mas ao mesmo tempo, sei que a maioria de vocês preferiria oferecer uma grana para o policial caso fossem pegos com a carteira de motorista vencida, por exemplo, a sofrerem as penalidades legais cabíveis. Tudo parece muito inofensivo, mas o que isso gera é um ciclo de corrupção e torna a nossa sobrevivência neste país ainda mais complicada e perigosa.

Considero este um dos maiores cânceres da nossa sociedade atual. O policial, que, acostumado a ter a sua renda aumentada e o seu trabalho diminuído através da prática regular do suborno, não cumpre o seu papel de vigilância e proteção dos cidadãos e patrimônios públicos. E o resultado deste comportamento dispensa explicações.  Além disso, ajuda a construir essa imagem de autoridade máxima que a polícia assume, como se estivessem acima da lei e pudessem machucar e humilhar as pessoas, usarem linguagem degenerativa, dar tapa em cara de maconheiro. E o fazem com freqüência.

O outro grande down-side é que o próprio cidadão, ao sentir-se impune, torna-se uma máquina letal, dirigindo por aí sem cuidado, envolvendo-se em práticas ilegais sem medo e desrespeitando as regras básicas para convivência em sociedade. Pois porque não, se não há nada que umas notinhas de R$100,00 não resolvam? Creio que as pessoas seriam muito mais cuidadosas ao passar um sinal vermelho, por exemplo, se soubessem que não poderiam evitar as conseqüências legais por isso. Alguém tem dúvidas de que isso tornaria a nossa vida mais segura?

Uma vez uma pessoa me disse que suborna policiais com orgulho, porque acha que eles ganham muito pouco pela sua profissão. Eu lhe perguntei por que então ele não os ajudava financeiramente de maneira espontânea, sem que tivesse feito nada de errado, simplesmente por achar que merecem ganhar mais. Ele não me respondeu.

 

5)      Não é seu, não pegue. Lembro-me de ter ficado indignada ao ver os porta-casacos na entrada dos restaurantes aqui na Alemanha, aonde os clientes deixam as suas coisas e sentam-se, muitas vezes, fora da vista de seus pertences. Comentei com os meus amigos que achei aquilo o máximo, e eles ficaram me olhando com cara de dúvida. Depois de um tempo morando aqui, percebi a imbecilidade da minha observação. Hoje vejo com clareza: o cara não pega porque não é dele. Simples. E quando pega por engano, devolve no restaurante, ou deixa um bilhetinho “casaco preto levado por engano, favor ligar no número abaixo para resgatá-lo”. E não me venha com esse papo de isso acontece no Brasil com mais freqüência devido às nossas condições sociais. É falta de educação mesmo. Quem lhe rouba não é uma criancinha faminta, é o seu colega de trabalho. Ou como aconteceu com o meu amigo, que estava em um churrasco com os colegas, todos conhecidos e em condições financeiras equilibradas, deixou o celular em cima da mesa e nunca mais o viu.

Também não serei hipócrita ao dizer que isso não acontece no primeiro mundo. Aqui também tem falta de educação, corrupção e criminalidade. A enorme diferença é que enquanto aí é regra, aqui é exceção. Aqui um moleque pode até roubar uma barra de chocolate no supermercado, mas vai se esconder. No Brasil isso é legal, é engraçado, rola até competição entre os amigos. O que tem de legal nisso, ainda estou para descobrir.

Me desculpe se fui grosseira com você, leitor. Ou talvez até injusta. E se você achou isso tudo muito óbvio, e não acha que lhe ajudou em nada, PARABÉNS. Você é um cidadão honesto e pode dormir em paz, sabendo que desta canalhada você não faz parte.

Mas se você encontrou algo com o qual se identifique, peço que reflita. Pense nas conseqüências de suas ações e nunca se esqueça de que, enquanto convivendo em sociedade, é importar praticar o pensamento coletivo. Não importa se algo é bom para você, o que importa é que seja bom para todos. É claro que isso significa abrir mão de muitas coisas, mas não ache que isso é coisa de gente boazinha. Este é um grande engano. Ser honesto é coisa de gente inteligente e até um pouco egoísta, que compreende que através de suas ações, ajudará a tornar seu país em um lugar melhor para se viver, mais agradável, mais seguro para seus filhos. O Brasil dos nossos sonhos.

Interrompemos@Programação

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  1. #1 por Felipe Palassi em 29/01/2012 - 9:18

    Olá Raquel!

    Sei que este blog foi inaugurado há algum tempo, sendo que no entanto ainda não havia parado para ler algum de seus post’s. Primeiro quero dizer-lhe que sua organização textual está aproximada do impecável, no ponto em que as ideias fluem e se inovam a cada paragrafo. Dá para notar que as palavras foram escolhidas e o texto alongado, porque um manifesto possui mesmo esta característica. Tenho quase certeza que seria um discurso ainda mais dinâmico se ocorrido de forma oral.

    A semântica não deixa a desejar, foi sociologicamente espinhosa e cutucou a raiz da ignorância da massa. Até por motivos óbvios nota-se uma elitização das informações passadas (confraternização entre pessoas abastadas em que surrupiam um celular, para dar um exemplo). E como combate de frente todas as formas de corrupção, talvez estejamos analisando com vendas que ignoraram as formas sociais paralelas menos abastadas tanto de recurso quanto de consequente informação. O celular furtado pode muito bem ter sido pego por alguém que não gostasse de seu dono, talvez possuísse característica distinta da observada; não que justifique o ato, mas que dê uma conclusão lógica a ele.

    Ao ponto de como observo a questão: vivemos numa sociedade que incute a vergonha no outro que não tem o produto de consumo. Onde o maior dos consumidores é o maior dos pobres, porque deseja substancialmente algo de que não pode usufruir, e tem a capacidade de gastar um salário mínimo em um tênis Nike, com a finalidade de amansar uma demanda de caráter social que gera demandas intrapsíquicas. Acredito que downloads ilegais, como tv a cabo ilegal, como água e luz ilegais, nada mais são que maneiras de consumir em um mundo que não permite financeiramente que se consuma tudo o que o mundo exige que tu consumas, ou seja, tudo o que o mundo aponta como necessário para se viver uma vida mínima. Quiçá na Alemanha não haja desconfiança sobre casacos soltos no rol de entrada do restaurante porque já atingiram um nível de consumo que não permite ao outro desejar loucamente um produto de consumo – já que todos o possuem, com marcas diferentes e tecidos que variam, preços diferentes, porém todos tem um casaco grosso que aqueça no frio.

    O mundo tem o seu Curriculum Vitae, digamos; porém não oferece suporte para que este seja preenchido por todos. E é aí que começam as formas paralelas para se chegar a preencher os requisitos que o mercado de trabalho exija. Talvez para um pobre em uma favela de São Paulo aprender inglês seja mais barato pagando internet de 30 reais do que pagando parcelas de cursos que ultrapassariam em muitos reais este valor, sem contar os gastos com transporte para se chegar ao curso e sem contar gastos com materiais escolares – entendendo aqui que um curso deste fosse essencial para preencher os requisitos do mercado de trabalho.

    Mesmo observando razões paralelas confio no teu texto, pois de qualquer forma exige atitudes, e manifestações contra corrupção em todas as esferas. E falando nisso, ficarei feliz com o dia em que atingirmos o nível da democracia sueca, em que o parlamentar não recebe mais do que um notebook para despachar. Apareceu um deputado federal do PDT que rejeitou em caráter irrevogável todos os aumentos salariais – 14º, 15º, e eticetera. Confiemos que é sinal de tempos mais prósperos e com um povo mais abastado e alinhado eticamente com o seu manifesto.

    Do amigo e poeta soturno,
    Felipe Palassi (http://felipepalassi.blogspot.com)

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