A música do verão

“Nossa, nossa, assim você me mata, ai seu eu te pego, delícia”. Assim começa a nova música do verão. Tataraneta de uma geração de bordões de baixo calão, é sucesso absoluto e está na boca do povão. Seja na praia, na loja, na padoca, ou na porta da sua casa, quando um infeliz estaciona, abre o porta-malas exibindo seu som ultra-mega-turbo e liga a bendita em alto e bom som, e coloca no repeat, você não conseguirá fugir. Aliás, sempre quis saber por que as pessoas que fazem isso sempre colocam uma música escrota. Meu apartamento em Santos fica em frente à praia, e desde a minha infância, nunca ninguém me acordou de madrugada com “Riders on the storm”.

“Pega aqui”, “Senta ali”, “Vou enfiar acolá”. Enquanto uns julgam este fenômeno como uma representação da liberdade de expressão ou da emancipação da mulher, eu julgo como um sinal claro de perturbação psicológica. Sou feliz por poder expressar-me livremente, tomar as minhas próprias decisões e não ser julgada pelo meu gênero (estamos quase lá, mulherada!), mas daí a chacoalhar os órgãos genitais em público…desculpem-me, mas do que se trata? Ok, cada um faz o que quer, mas porque alguém quer fazer isso? Que tipo de repressão as pessoas sofrem em seus lares, que as faz quererem exibir seus pensamentos (e movimentos) mais íntimos em público? Será a busca por aprovação? Ou talvez por reprovação? Ou será algo completamente diferente, do qual eu nem tenho idéia?

Quero entender as raízes dessa pornografia explícita, que o Brasil exibe como um troféu. Enquanto isso, a “gringaiada” volta para casa, embasbacada pelos encantos da nossa pátria amada e idolatrada, cantando “dói, um tapinha não dói, lálálá” e pensando como as mulheres no seu país não sabem rebolar. Brasil, um país de cultura riquíssima e de fazer inveja, com uma lista quase sem fim de poetas, compositores, escritores, diretores e afins, transmitindo mensagens de amor e justiça, transformando a nossa educação, influenciando a nossa cultura e iniciando revoluções. Mas nada disso é páreo para a música do verão.

Bons eram os tempos em que esfregar era o que a minha mãe fazia com a minha roupa suja, em que o compasso era um instrumento que eu usava na aula de Geometria. Hoje em dia “esfregar o compasso” faz filho. Filhos de orgias, de pais sem rosto, feitos sem amor e assim criados, crescem para tornarem-se pessoas vazias, sem compaixão, que ouvirão a música do verão e farão mais filhos sem amor, que crescerão para tornarem-se pessoas vazias, sem compaixão…etc. Ainda bem que os meus amigos não gostam da música do verão. Bom, pelo menos, é o que dizem. Mas quando a cerveja sobe, o rebolado desce. Aí sai todo mundo dançando a música do verão, e de garota sensata, eu sou imediatamente transformada em garota chata, que não sabe se divertir. “Não pode vencê-los, junte-se a eles!”, é o que eles dizem. Pois eu digo: a única maneira de vencê-los é NÃO se juntando a eles.

Hipócritas, é o que nós somos. Adoramos as nossas lindas mulheres, com as suas roupas e movimentos provocativos e a palavra SEXO escrita na testa em neon, nossos homens másculos, que tratam mulheres como um chimpanzé faz com a fêmea no cio. Mas quando uma mãe quer amamentar o seu neném em público, nós a proibimos (leia mais: http://www.istoe.com.br/reportagens/142650_A+POLEMICA+DA+AMAMENTACAO). Quando a gringa chega com o seu andar nada elegante, seu corpo franzino e seu biquíni que poderia ser usado como tenda da barraca do pagode e tira o top…algema nela! Aqui não é lugar de sem-vergonhice!

Isso diz muito sobre o nosso povo. Um povo que não lê, que não entende poesia, que pensa que arte é coisa de gente intelectual. A arte existe para interpretar sentimentos, emoções, tudo aquilo que não conseguimos colocar em palavras. Aí vem a música do verão, com suas estrofes curtas e significados ao pé-da-letra, que não exigem nenhum esforço por parte do seu ouvinte para interpretá-las. Que não lhe oferece ferramentas para ajudá-lo a compreender o mundo, mas sim diz exatamente o que e como deve fazer as coisas. É a antítese da Arte.

Meu primeiro impulso é pensar em chamar a polícia, mas eles não vão entender. Vão pedir para as pessoas abaixarem a música, mas o que quero mesmo é que sejam algemadas. “Você está preso pelo assassinato do Bom-senso. Você tem o direito de ficar calado, e caso queira falar, tudo o que disser poderá ser usado contra você”.

Enquanto isso, sigo sonhando com um verão em que eu possa ouvir o barulho das ondas…

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  1. #1 por Deb Munayer em 02/12/2011 - 7:06

    Enquanto isso, aqui nos tropicos… mais algumas criptonitas serao lancadas so neste verao aqui. Passeio pela orgia e me perplexo… dou um passo a frente e parece que estou andando pra tras. A musica esta sendo usurpada para vender tudo menos ferramentas para compreender o mundo. E embora seja num grau mais preocupante por causa do contexto social-politico-economico em que esta inserido, nao eh so aqui!! Na Europa bomba o Funk das Armas e Mr. Saxobeat, com uma conotacao sexual um pouco mais sofisticada, e nos nossos vizinhos americanos do norte, instituicao de pimps and hos, a exploracao chula de uma forma de arte negra, o funk e o rythym n blues, com videoclips praticamente pornograficos e o lema, Get Rich Or Die Trying.
    Irma, vejo que vc ficou tao repugnada quanto eu quando, na tenra idade, os seguintes versos lhe soavam os ouvidos em qquer lugar que passava> tudo que eh perfeito a gente pega pelo braco/ joga la no meio, mete em cima, mete em baixo/ depois de nove meses vc ve o resultado…

    Deb Munayer

  2. #2 por Dani Marino em 02/12/2011 - 7:49

    Raquel, como diz uma amiga minha, o problema da baixa auto-estima da mulher brasileira já é social! Mulherada se submete a qualquer coisa para chamar a atenção.
    Eu já chamei a polícia e passei a ser ameaçada de morte depois disso! Mas continue escrevendo, porque existem pessoas que ainda preferem uma boa música às musiquinhas d everão!

  3. #3 por Dantas De Carvalho Vinicius em 02/12/2011 - 17:34

    Realmente a imagem do Brasil aqui na Europa ( Italia ), é : brasileiro um povo alegre bonito e pelado pronto para o ato sexual e bebados…… e as musicas que conhecem sao parapa pa do Bope e agora Ai Ai se eu te pego……..etc. Uammamiaa que horror,…..

    De verdade eu amo meus pais e minha cultura brasileira, mas ainda temos que evoluir muitoo em varios aspectos…… Saudade….S2…..

    Vinicius Dantas

  4. #4 por Claudia em 14/12/2011 - 15:40

    Raquel, adorei seu post e realmente ha certas coisas indignantes na sociedade brasileira, concordo com suas ideias e sou sincera em dizer que os hits de verao me causam um grande tormento…

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