O verdadeiro sentido do Natal

Um mar de luzes coloridas e piscantes. Estrelas, bolas, renas e presépios por todos os lados. Pais levando seus filhos ao Shopping Center, para se sentarem no colo de uma figura bizarra com uma barba de plástico, vestido com uma roupa que nada combina com o nosso clima tropical, e pedirem-lhe brinquedos de última geração. Brinquedos que, ironicamente, VOCÊ terá de comprar, enquanto o “velhinho” ainda vai receber um cachê por pagar esse mico. No supermercado, pessoas se acotovelam para pegar a promoção “compre dois Perus e ganhe um Tender”.  As divisões que costumam separar os corredores foram substituídas por muralhas de Pannettone, munidas com estímulos visuais potentes o bastante para garantirem que 95% dos clientes comprem pelo menos um, mesmo quando não gostam.

Os presentes. Os produtos estão ainda mais caros do que o normal e os vendedores tem pouco interesse em lhe dar atenção, já que há uma fila de pessoas aguardando atendimento anyway. Crianças em lojas de brinquedos parecem estar em um estado de transe parecido com tubarões sendo alimentados. Tudo está lotado, e você mal ouve seus próprios pensamentos. Você tem uma lista de pessoas para as quais precisa comprar ao menos uma “lembrancinha”, e ferve o cérebro pensando se não esqueceu nenhuma pessoa, pois não quer magoar ninguém. Aí se pergunta se deve presentear só os colegas de trabalho mais próximos, se deve presentear todos pra não ficar chato, ou se dá uma de bitch e não presenteia ninguém. Você está sem dinheiro e sem saco, mas não consegue se livrar desta situação.

“Pijama para o sogro – OK

  Perfume e gravata para o marido – OK

  Calça para a irmã – OK

  Livro para a melhor amiga – OK

  8 latas de biscoito para os amigos –OK”

E quando finalmente parece que tudo acabou, você lembra que precisa embrulhar todos e escrever cartõezinhos individuais, com mensagens fofinhas de amor, paz e o caralho. E com letra bonita!

Mas aí vem a ceia, e tudo parece ter valido a pena . Você se arruma toda pra ver seus tios e mais uns parentes estranhos com os quais você só tem contato no Natal, come uns 5 animais diferentes com 8 combinações de carboidratos para acompanhar, e, pra se sentir melhor, também coloca um pouco de salada no prato (ignorando que é à base de maionese). Todo esse treino é para preparar o seu organismo para o buffet de doces, regado à cremes, caldas, suspiros e chantillys, e uma cesta de frutas que só serve para decoração. Para beber, você pode escolher entre bebidas doces, alcoólicas, ou doces E alcoólicas. Na troca de presentes, você deve passar pela tortura psicológica de ter que abrir os presentes na frente de todos, controlando a sua vontade de chorar quando abre o pacote e encontra o livro “Fique rico e famoso em um mês”, mas que nem de longe é tão horrendo como cachecol que a sua prima do Sul lhe trouxe, esquecendo completamente o fato de que você mora na praia e provavelmente nem sabe como colocar um cachecol.

Eu poderia passar horas descrevendo essa rotina maçante, que se repete anos após ano na vida de tantas pessoas, mudando apenas pequenos detalhes, como o nome do tio que capota no sofá e o sabor do pavê. Tantos são os elementos que circundam essa data, que sobra pouco neurônio para refletir sobre o verdadeiro significado do Natal. E é para isso que estou aqui.

Na verdade, as origens das celebrações da data são mais antigas do que o próprio Jesus. Na Europa, costumava-se celebrar nesta mesma época por uma semana o solstício de inverno. Para quem não sabe o que é: na Europa, conforme o inverno se aproxima os dias também vão ficando mais curtos, até os 20 e poucos de dezembro, que são os dias mais escuros do ano. A partir desta data, o sol começa a se pôr mais tarde e os dias ficam mais longos.

É fácil associar a maioria das nossas tradições natalinas à comemoração do solstício de inverno. Abater os animais era bastante comum no festival, pois nesta época tão crítica do ano, com pouca luz e sem que frutas e vegetais pudessem crescer devido às baixas temperaturas, não havia recursos para alimentá-los, e eles morreriam de qualquer jeito. A solução era sacrificá-los e oferecer um banquete com toda a carne. Durantes as festas, costumavam colher galhos de pinheiro (única árvore que sobrevivia às baixas temperaturas) para decorar as casas. Daí vem as árvores de Natal. As luzes com as quais decoramos as nossas árvores são uma herança do antigo hábito de acender velas, representando a luz que irá retornar com o fim do solstício.

Quando o imperador Constantino fundou o catolicismo, teve grandes problemas para converter todo o povo, que até então adorava deuses pagãos, para a sua nova religião. Ele precisava encontrar uma maneira de converter as pessoas e já havia tornado o catolicismo a religião oficial do império, mas as pessoas continuavam a adorar deuses pagãos. Uma das estratégias para a conversão das massas foi a de transformar datas de comemorações pagãs em comemorações católicas. O dia 25 de dezembro foi escolhido por estar no meio das festividades do solstício e por ser a data em que se comemorava o aniversário do deus pagão Mitras. Lentamente a igreja foi alterando o significado da data, até que todo o império tivesse sido convertido (ou queimado vivo).

O Natal continuou alterando-se com o tempo. A religião católica instituiu a tradição da troca de presentes, como representação dos presentes que os reis magos entregaram a Jesus. No norte da Europa, surgiu o São Nicolau, bispo que ficou famoso por deixar presentes dentro de meias, dando origem à criação do Papai Noel. Na Holanda, uma outra versão do São Nicolau chamada Sinterklaas foi criada a partir da imagem do deus pagão Odin, que voava pelos ares com o seu cavalo de 8 pernas, dando origem ao mito das renas voadoras. Nos Estados Unidos, foram moldadas as antigas tradições e mais uma porção foram criadas, dando origem à festa que conhecemos bem hoje. Feras do ramo publicitário foram contratadas para mudarem de vez o sentido desta data, que já havia perdido completamente o fio da meada. Foi na América que o bispo São Nicolau perdeu a qualidade religiosa e foi transformado no gordinho barbudo de roupas vermelhas que hoje conhecemos. Casa do Papai Noel no pólo norte, fábrica de brinquedos operada por duendes e lista de crianças que se comportaram foram todas idéias de marketeiros americanos.

A religiosidade desta data é altamente discutível. No passado, em especial após a reforma da Igreja, muitos protestantes conheciam as origens pagãs do Natal e não queriam fazer parte dele. Em colônias puritanas e até na Inglaterra, o Natal chegou a ser proibido, devido ao alto consumo de álcool e comportamento abusivo. Havia muitos acidentes e destruição de patrimônios públicos e privados nesta data, e a igreja, juntamente com a nobreza, fez propaganda intensa para que esta se tornasse uma comemoração familiar e tranquila, já que a proibição não havia funcionado.

E nós, no Brasil, com um calor de 35 graus, comemorando o solstício de inverno. Não temos pinheiro, então compramos uma árvore de plástico e a decoramos com bolas plásticas, luzes artificiais, bonecos de neve e outros badulaques, tudo Made in China. Isso porque na China nem sequer existe Natal. Comemoramos esta data porque ela foi trazida pelos nossos colonizadores, os mesmos que mataram mais da metade da nossa população, estupraram as nossas mulheres e nos escravizaram. Não temos sequer idéia do que os nossos povos indígenas comemoram. A nossa cultura foi substituída pela cultura européia, e nós mantivemos as suas tradições, jogando fora as nossas próprias.

Chega desse papo de que o Natal é época de confraternizar, estar com pessoas amadas, perdoar os inimigos. Chega de ilusão. Natal é sim época de lembrar: lembrar que a Igreja Católica é maléfica e imperialista, lembrar que somos vítimas das pessoas que lucram com a nossa devoção, lembrar que há muito tempo colocamos o nosso cérebro no piloto automático. Lembrar que milhares de pessoas que não quiseram aderir a festividades como essa foram perseguidas, torturadas e mortas pela mesma instituição que diz ser portadora de mensagens de paz, amor e união. O meu desejo para este Natal é que deixemos de ser adoradores de símbolos plásticos, falsos crentes, consumidores descontrolados. Que a hipocrisia perca espaço para a razão, que nós queiramos compreender o porque das coisas, que deixemos de acreditar no que nos contam sem questionamento. Que possamos compreender que mesmo pessoas que nos amam e querem o nosso bem falam merda, e muita. Que façamos caridade sempre que pudermos, e não só no Natal. Enfim, que nos libertemos desta camisa-de-força que nos faz sentir essa angústia cada vez que o Natal se aproxima…chega!

Seja bom o ano inteiro!

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