Viciados em hipocrisia

Heraldo chega a casa após um dia cansativo de trabalho. Dos três projetos que entregou hoje, dois foram devolvidos para serem refeitos. Há anos ele vem trabalhando para um chefe que detesta e acha incompetente, e o fato de que o chefe também acha isso dele não torna as coisas mais fáceis. Heraldo tira os sapatos desconfortáveis, afrouxa a sua gravata, prepara um copo de uísque com duas pedras de gelo e senta-e em sua poltrona para relaxar. “Se não pudesse fazer isso todos os dias, não sobreviveria”, pensa ele enquanto sente o álcool relaxar os seus músculos, amornar o seu rosto e tornar as suas preocupações mais distantes.

Enquanto isso, a sua esposa Neusa está estirada no sofá, assistindo a novela das oito. Ela se encontra em estado de letargia mental, e só se move quando precisa esticar o braço para pegar um biscoito. Os seus maus hábitos alimentares vêm lhe deixando sem forma, sem beleza, sem energia e sem saúde, mas Neusa não consegue parar. Tudo isso tem lhe causado muitas noites de insônia, o que a levou a adquirir o hábito de tomar remédios para dormir. Além destes, ela ainda conta com um batalhão de pílulas, que ela carinhosamente chama de “salvadoras”. Dor de cabeça, azia, má circulação…ao invés de melhorar a sua dieta e acabar com os seus problemas, Neusa prefere destruir o seu corpo lentamente e maquiar os efeitos colaterais com remédios, tudo em nome dos pequenos prazeres gastronômicos. Bom, seus hábitos estão mais para pacotes de comida industrializada com cores e sabores artificiais do que prazeres gastronômicos. “Sem meus remedinhos, a minha vida seria um inferno”, pensa ela, enquanto devora um biscoito de chocolate que deixa os seus dedos brilhantes de tanta gordura hidrogenada.

Cláudio, filho mais velho do casal, acaba de chegar. Ele tem apenas 23 anos e acaba de se formar advogado. Seus esforços para ser efetivado na empresa para a qual trabalhou como estagiário nos dois últimos anos o tem levado a trabalhar cerca de 50 horas por semana, na esperança de que isso lhe abrirá portas e lhe trará experiência. Ele lida bem com a carga horária pesada, que na verdade, é até mais leve do que a maratona de festas e baladas que viveu nos anos de faculdade. A diferença é que agora ele não se diverte mais. O sono e o cansaço mental batem de uma maneira nova, mas felizmente, os seus colegas lhe apresentaram o melhor amigo do trabalhador de escritório: o café. Graças ao seu novo hábito, Cláudio pode driblar a fadiga, adquirir uma dose extra de concentração na hora de rever aquela petição e ainda serve como desculpa para fazer uma pausa, quando a monotonia do seu trabalho atinge índices insuportáveis. Trouxe também algumas novas pontadas no estômago, mas ele pode viver com isso. “Sem o meu café, não sou ninguém”, pensa ele, enquanto adiciona dois pacotinhos de açúcar em um copo de plástico, em uma preparação para a quinta dose de hoje.

Dri, a irmã do meio, está se maquiando para encontrar-se com as suas amigas. Como toda sexta-feira, elas irão ao Bardalado, aonde começa a preparação para a noite. Ela e a sua mãe acabaram de ter uma discussão, e ela faz questão de bater as portas dos armários e jogar coisas no chão para irritar a pobre Neusa. A discussão começou quando a Dri disse à sua mãe que precisava de dinheiro para comprar novos sapatos para este fim-de-semana. Neusa, que já estava perdendo o sono com os furos no orçamento da família, disse que isso estava fora de questão. Dri não se conformava com a atitude da mãe em dizer que sapatos novos não tinham nenhuma importância, e que ela já havia comprado um par algumas semanas antes. Mas e daí? Ela não entendia que o seu visual impecável era essencial para a sua vida social. Como ela faria amigos, encontraria um namorado legal ou até arrumaria um emprego se estivesse sempre com as mesmas roupas ou tivesse pele e cabelo mal cuidados? Dri se enfurecia cada vez que pensava nisso…para piorar, Neusa vinha criticando a sua mania de usar maquiagem até para ir comprar pão. “Ela é louca. Imagina se alguém me vê sem maquiagem? Não posso viver sem!”

Pedrinho estava trancado em seu quarto, como sempre. Filho mais novo de Neusa e Heraldo, é doutor em assuntos de tecnologia. Convenceu o seu pai a comprar-lhe equipamentos de última geração ao dizer que havia encontrado a sua vocação como programador e precisava agora aprender mais e praticar bastante. Entre um “trabalho” e outro, o computador acabava por ser mais usado para jogar RPG online e assistir filmes pornôs, do que para praticar a sua futura profissão. Esse comportamento introvertido acabou por causar-lhe problemas de comunicação e socialização e, até mesmo com a sua família, Pedrinho tinha pouco contato. Os pais vivam gritando com ele para ele sair de frente do computador, ir estudar e ajudar nas tarefas de casa, e os irmãos não tinham assunto com ele. “Eles não entendem nada. Ainda bem que tenho o meu computador para me distrair” pensa ele, enquanto escolhe os poderes do seu novo personagem virtual.

Pedrinho tinha um amigo da escola, o Henrique, que de vez em quando aparecia na casa dele para fazerem um trabalho, estudarem para uma prova ou jogarem vídeo-game. Neusa não deixava Pedrinho visitá-lo, pois ficou sabendo, em uma das reuniões de pais na escola, que o garoto havia sido suspenso por ter sido pego fumando maconha no banheiro. Achava que, se estivessem sob o seu teto, poderia controlá-los melhor, apesar de não sair do sofá o tempo todo em que o garoto estava lá. Neusa e Heraldo já haviam reparado que o garoto está sempre com um ar risonho e relaxado, e não gostavam nada dele. Já haviam conversado com Pedrinho para escolher outros amigos, mas Pedrinho insistia que Henrique era um garoto muito legal e que era até bem melhor do que ele na escola, mas a sua família era enfática:

Heraldo: “Meu filho! Pessoas viciadas precisam da sua droga todos os dias e não conseguem viver sem ela! Não é bom ter amigos assim, você pode acabar destruindo a sua vida!”

Neusa: “Ai Pedrinho, eu vi ontem no programa da tarde da Band que esses maconheiros não fazem nada de útil, passam o dia todos sentados no sofá e comendo. Quero um futuro melhor para você, meu filho!”

Cláudio: “É meu irmão, eu sei bem como é, tive alguns amigos assim na minha época de escola. Eles estavam sempre  brisados e não davam bola para o que os professores falavam, e não tinham interesse em construir um futuro, como eu. Uma pena.”

Dri: “Nem me fale. O irmão da Clara também fuma e é um idiota. Vive se metendo em protesto, ouve umas músicas super estranhas e tem uns amigos sujos e que usam umas roupas largas. Não vai ficar assim hein, Pedrinho. Credo!”

Pedrinho ficou confuso. Trancado em seu quarto, ele se deu conta de que a sua família era muito pior do que qualquer maconheiro que ele já conheceu. Perguntou-se porque alguns vícios são bem aceitos na sociedade, mas outros não. Refletiu sobre as origens destas proibições e decidiu pesquisar mais sobre o assunto. Passou alguns dias mergulhado no seu quarto, lendo matérias e revistas, assistindo documentários e até pesquisando nos livros de história da biblioteca da sua escola. Pedrinho ficou abismado com o que descobriu, e ficou enfurecido por ter sido alimentado com tantas mentiras e preconceitos durante toda a sua vida. Pensou em seus pais com pena, por acreditarem tão cegamente nestas autoridades falsas, atacando pessoas de bem para desviar a atenção das suas próprias vidas miseráveis e repletas de vícios atormentadores, que sugavam cada partícula de energia de seus corpos e mentes, transformando-os em zumbis, seguidores de falsos ídolos.

Pedrinho nunca mais foi o mesmo.

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  1. #1 por Dani Marino em 23/01/2012 - 22:24

    Adoro seus textos e acho que estávamos mais ou menos na mesma vibe quando escrevemos alguns. Dá uma olhada nesse: http://www.stardustandotherdreams.blogspot.com/2012/01/fragmentos.html
    Bjos

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