Estou com frio

Ontem fui ao centro tomar um café com um amigo. Combinamos de nos encontrar em frente a uma igreja famosa, que fica próxima à saída do metrô. Cheguei um pouco antes e precisei esperar 3 minutos por ele, o que me deixou extremamente mal-humorada. Você deve estar pensando que eu sou uma nojentinha arrogante por ter ficado irritada por um atraso de 3 minutos, mas eu tenho um bom motivo: o frio.

No trem, à caminho do nosso ponto de encontro, cometi a burrada de checar a temperatura atual no meu celular. Não sei para quê eu fiz isso, já que não havia nada que eu pudesse fazer e eu teria que ir de qualquer forma, mas eu fiz. O termômetro marcava -14°C. Se você já ficou paradinho de pé esperando alguém com essa temperatura, você sabe que 3 minutos são suficientes para que o frio ultrapasse todas as camadas de roupa, de pele e de banha e atinja os ossos. O meu amigo chegou.

Tivemos que caminhar 3 quadras até a biblioteca da universidade para que ele buscasse um livro que havia encomendado, e mais 2 quadras para chegarmos ao café que queríamos. A essa altura, eu já não sabia mais o que ele estava falando. O frio havia penetrado cada centímetro do meu ser e eu comecei a ouvir um zumbido de longe. „Deve ser o meu tímpano se petrificando“, pensei. A pele do meu rosto doía tanto que tive a sensação de que alguém havia encostado um isqueiro aceso nas minhas bochechas. Finalmente chegamos ao café, e quando abrimos a porta, sentimos aquele delicioso bafinho quente saindo dos aquecedores, que agem como pequenos choques pelo corpo, relaxando os músculos e nos deixando com um soninho gostoso.

 A caminhada de 5 quadras até lá não foi fácil. Eu carregava apenas a minha pequenina bolsa, com a minha carteira, chave e mais algumas besteirinhas, mas sentia-me como se um obeso mórbido estivesse fazendo „cavalinho“ no meu ombro. Com 3 calças, 2 blusas de lã, 2 casacos, 2 xales, 3 meias, bota e gorro forrados com lã e luva grossas, a impressão que tinha é que estava caminhando em areia movediça. Cada passo, e parecia que estava cada vez mais longe do café. Para piorar, tinha uma vozinha estridente na minha cabeça, dizendo „Mãe, tá chegando?  Tá chegando, mãe? Já chegamos? Quantos minutos faltam?“. Acho que a voz era a minha própria, que ficou gravada em algum lugar remoto no centro de memória do meu cérebro após uma sessão de importunação à minha mamãe, há muitos anos atrás.

Pedi um chocolate quente e, ao invés de tomá-lo, ficava esfregando a xícara no meu rosto, no meu pescoço, na minha barriga, no meu joelho, etc. O meu amigo me alertou que eu não deveria fazer isso, ou sentiria ainda mais frio quando saíssemos. „MAIS FRIO? Chama um médico!“, foi o que eu respondi. Após uns 20 minutos de blablabla, quando comecei a sentir o dedo mindinho do pé esquerdo de novo, era hora de sair. Começou tudo de novo. Meu amigo foi embora e eu decidi colocar o fone de ouvido e escutar um som, para esquecer a minha tristeza. Coloquei no random e começou a tocar „Samba de Orly“.

“Vai meu irmão, pega esse avião
Você tem razão de correr assim desse frio
Mas veja o meu Rio de Janeiro
Antes que um aventureiro lance mão.
Pede perdão pela duração dessa temporada
Mas não diga nada que me viu chorando
E pros da pesada diz que eu vou levando
Vá ver como é que anda aquela vida à toa
E se puder me manda uma notícia boa“

Eu chorava igual criança. Até que foi bom, pois as lágrimas quentinhas acalmavam o meu rosto congelado. Quando entrei na lojinha do feirante perto de casa, ninguém percebeu que eu estava chorando,  já que todo mundo estava com o rosto vermelho por causa do frio. Na hora de pagar, a simpática senhora perguntou-me: „Você vai para casa agora?“, eu disse: „Sim“. Ela disse: „Ótimo, pois se você não fosse, iria lhe sugerir que viesse buscar a salsinha mais tarde, para que ela não congele no caminho. Mas neste caso, vou embrulhá-la bem e vamos torcer para que não dê tempo. Fresquinha é mais gostosa!“. Eu comecei a chorar de novo.

Corri para casa o mais rápido que pude, e quando cheguei à porta, precisei tirar a luva para procurar a minha chave. Sentia como se pequenas agulhas estivessem penetrando no meus dedos e, quando finalmente achei a chave, não conseguia enconstar nela, pois estava praticamente congelada. Quando peguei o meu celular para ver as horas, o visor estava suado como uma jarra de suco na geladeira, então deixei para lá. Entrei em casa e corri para debaixo das cobertas. As crianças me viram chorando e me trouxeram chá, bolsa de água quente, deitaram comigo e me abraçaram até eu pegar no sono.

E é assim sempre, toda vez que preciso comprar um pão, ir para o trabalho, sair com os amigos. O verão brasileiro pode muitas vezes parecer insuportável, mas pelo menos é divertido. Com esta temperatura, a Alemanha parece um cemitério gigante, vazio e escuro, silencioso e deprimente, aonde se vê poucas pessoas, e estão sempre andando rapidinho, querendo estar em casa. Há meses eu não vejo um cotovelo, um pescoço, uma coxa.

Eu quero a minha casa!

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  1. #1 por Helô Moraes em 04/02/2012 - 19:00

    ai filha se eu nao estivesse me acabando de rir estaria chorando tambe…desculpe mas as tuas metaforas me fazem gargalhar….excelente novamente!!!

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