Do amor ao asco: A história de um fiasco

Lá vai Marta, descendo a ladeira. Ela gosta deste trecho do caminho ao trabalho, pois não precisa se esforçar para se mexer, deixa apenas que a gravidade a impulsione. Andando sem balançar os braços e com os olhos fixados no nada, nem escutou quando o Seu Neco a cumprimentou, como faz todos os dias quando a vê passando em frente à sua lojinha de doces.

Marta havia perdido o apetite pela vida. Desde que o seu relacionamento-relâmpago de três meses com Alfredo terminou, ela não penteava mais os cabelos, não passava batom e não lavava as suas roupas. Por sorte, ela trabalha no setor de criação de uma agência publicitária e ninguém percebeu a mudança.

Alfredo era o homem de seus sonhos. Ela o conheceu na barraca de algodão-doce do parque de diversões da cidade, quando levou a sobrinha para andar de carrossel. Alfredo estava lá, encostado no balcão de metal da barraca, conversando com o vendedor. Ela chegou perto para comprar um algodão-doce e, ao esbarrar em suas costas, sentiu um aroma inebriante, que ela classificou como “cheiro de floresta”: amadeirado, fresco, forte e selvagem. Ela contou isso para ele depois e ele achou graça. Alfredo logo começou a flertar com Marta e, quando a pequena sobrinha perdeu a paciência e começou a correr para lá e para cá, eles tiveram que interromper a conversa. Marta já estava vermelha e toda manhosa quando Alfredo pediu o seu telefone. Ela gostava de fazer um charminho nessas situações, mas dessa vez, não deu tempo. Falou o telefone de uma vez e correu para procurar a sobrinha.

Para o desespero de Marta, Alfredo demorou cinco dias para ligar. Ele a convidou para ir ao cinema e, durante a sessão de uma comédia romântica hollywoodiana recheada de gente magra e bonita, tudo deu certo no final, assim como no filme: eles se beijaram. Desde então, passaram a se encontrar com freqüência e logo começaram a namorar. Marta era cegamente apaixonada por Alfredo e Alfredo…gostava de Marta. Estavam sempre passeando, indo à praia nos fins-de-semana, assistindo a filmes idiotas, comendo besteira de madrugada e falando bobagem. Quando, um dia, Marta disse a Alfredo que estava na hora que ele conhecesse os seus pais, ele ficou estranho. Nunca falava da família dele e Marta não sabia por que, e agora ele não queria saber da família dela.

Alguns dias após a discussão sobre o jantar com os pais dela no domingo seguinte, Alfredo enviou-a um SMS:

“Martinha, andei pensando sobre nosso namoro. Acho que não vai dar certo. Não fique triste, o problema não é com você, eu é que estou confuso. Espero que possamos ser amigos.”

Marta leu a mensagem e, com as pernas bambas, precisou encostar-se na parede para não cair. A sua respiração ficou curta e ofegante e ela não sabia se deveria responder. Resolveu ligar, mas caiu na caixa postal. Ela tentou outras 37 vezes, torcendo para que a linha estivesse apenas ocupada, mas logo caiu na real de que ele havia desligado o telefone assim que enviou a mensagem.

Desde o dia fatídico, Marta vinha se arrastando pelas ruas e corredores como um corpo sem alma. Ela não quis trocar a roupa de cama, pois Alfredo havia se deitado nela, e ela jurava que ainda sentia o “cheiro de floresta”, mesmo quando a sua irmã dizia que só sentia cheiro de suor ressecado. Em um jantar com as amigas na casa da Roberta, percebeu que as meninas faziam de tudo para animá-la e desviar a atenção do “saco de merda”, novo apelido que elas deram ao Alfredo após o vergonhoso término via mensagem de texto. Em meio às risadas, Roberta levantou-se e foi à cozinha para buscar mais uma garrafa de vinho. Quando abriu a porta da geladeira, um cheiro insuportável de comida podre espalhou-se pela sala.

          Ju: Nossa! Quem morreu?

          Pri: Chama um padre! Os caça-fantasmas! Alguém acuda!

          Marta: Sabe que eu…

          Thaís: Você o que, Martinha? Lembrou do peido do Alfredo?

As meninas caíram na gargalhada. Não era isso que Marta ia falar, mas a piada da Thaís a lembrou do dia em que ela e Alfredo estavam no carro, quando de repente, Alfredo peidou. Ela achou estranho na hora, mas como ele não esboçou nenhuma reação, ela achou que este talvez fosse um bom sinal, de que ele agora sentia-se à vontade perto dela. Ela sentiu um aperto no peito e lamentou não tê-lo por perto.

Marta não suportava mais sentir-se assim. Ela sabia que deveria dar um basta neste estado de depressão em que se encontrava, antes que consumisse toda a sua energia. Precisava aumentar a sua auto-estima e retomar as rédeas de sua vida. Marta decidiu fazer o que todas as mulheres fazem quando em recuperação de uma decepção amorosa: cortar os cabelos e comprar sapatos novos. Ela, que sempre considerou este comportamento fútil, hoje entende que é na verdade um passo importante na busca por uma nova identidade, um novo começo, a remoção cirúrgica de um passado indesejado. Para entrar com o pé direito em uma nova vida, nada melhor do que um novo “eu”. O dia seguinte foi reservado para um dia de beleza, com direito à esfoliação, hidratação da pele e cabelos, manicure e pedicuro, máscara de argila e limpeza de pele. Quando Marta aproximou-se do espelho de aumento para começar a eliminar os cravos de seu rosto, hesitou. “Estes cravos estavam lá conheci o Alfredo…eles viram tudo” disse ela.

Marta olhou para o espelho e viu o seu rosto com aquela expressão tristonha. A frase que ela acabara de dizer estava ressoando alto, como se as paredes houvessem lhe arremessado as palavras de volta, de tão tolas que eram. “Os cravos estavam lá quando conheci o Alfredo? Que porra é essa? Eu enlouqueci?”. Uma porção de imagens lhe veio à cabeça, quase na velocidade da luz. Ela lembrou-se da cena na casa da Roberta, quando o cheiro de peido a fez lembrar-se dele com nostalgia. Lembrou-se do dia em que Alfredo chegou do futebol com cheiro de azedo. Lembrou-se de quando eles chegaram em casa após uma corrida no parque e ele tirou o tênis, empesteando o apartamento com aquela fuduca. Lembrou-se de uma espinha bizarra que ele tinha nas costas e não tirava, nem deixava ninguém chegar perto. Lembrou-se de uma verruga gigante e peluda que ele tem no braço e que ela sempre esbarrava quando estavam dormindo de conchinha. Lembrou-se de um pêlo que saía do nariz dele e que ela não entendia por que ele não cortava. Lembrou-se de uma cueca suja que encontrou no chão do banheiro e que não lhe saiu mais da cabeça. “Blaaaargh”, disse ela em voz alta, enojada. Marta correu para a cama e arrancou os lençóis, os enfiou na máquina de lavar, colocou o dobro de sabão no dosador e ajustou a temperatura máxima. “Ai que nojo, ai que fedor, ai que horrível!” exclamava ela, enquanto esfregava um paninho com desinfetante em tudo em que ele havia encostado.

Alguns dias depois, Marta foi à sua cidade natal para visitar os seus pais. Como sempre, a sua mãe assou um bolo de fubá cremoso, favorito da Martinha. Enquanto conversavam sobre coisas como a alta do preço do feijão e o Alzheimer da avó, a sua mãe lhe perguntou: “E aquele moço, o Alfredo, no que deu? Desde que você cancelou aquele jantar, não fa…nossa filha, que cara é essa? Parece que chupou limão!”

Marta: “Ai credo mãe, não fala desse cara quando eu estou comendo!”

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