Livres para pensar

Joãozinho gosta de desenhar, Pedrinho é bom em Matemática e Clarinha arrebenta no Português. Porém, todos eles, independente de suas capacidades e interesses, terão de ter um aproveitamento mínimo de 60% na prova de Biologia. O sistema parece injusto e atire a primeira pedra quem nunca se perguntou “Para que estou aprendendo isso?”

Chegamos à escola como um pedaço de pano, e os professores trazem suas linhas e agulhas para bordarem em nós as experiências e o conhecimento que nos transformarão em quem seremos no futuro. A questão é: até que ponto podemos opinar no que será bordado? É sabido que os professores necessitam da colaboração dos alunos para que o processo de aprendizagem seja completo e bem-sucedido, já que é difícil fazer um bordado bonito em um pano que insiste em lhe escapar das mãos. Porém, que tipo de conhecimento é esse que o sistema educacional nos oferece?

A escolha do conteúdo que compõe uma educação completa e de qualidade pouco se difere em diferentes culturas. Apesar das aparentes divergências, em sua essência, as matérias são escolhidas de modo a estimularem diferentes partes do cérebro, tornando-nos aptos a conviver em sociedade e solucionar pequenos problemas em todas as áreas de conhecimento. Além do mais, conhecer a estrutura básica de cada área nos ajuda a reconhecermos as nossas próprias habilidades e aspirações, facilitando assim a nossa escolha profissional. Porém, até que ponto deve se ensinar as mesmas coisas e exigir os mesmos resultados de pessoas diferentes? Quais são os objetivos desta padronização, bem como as suas consequências?

Para quem teve problemas na escola, como eu, esta é uma questão fundamental e complexa, já que criar um sistema educacional para cada tipo de pessoa parece um sonho distante. Porém, posso afirmar sem nenhuma restrição que a escola foi, em muitos aspectos, um limite intelectual em minha vida, principalmente nos chamados trabalhos em grupo. No meu caso, a melhor maneira de se absorver algum assunto é através de estímulos visuais. Até hoje eu tenho o hábito de assistir a documentários, já que tenho grande interesse em ampliar o meu conhecimento, mas costumo perder-me durante a leitura de um texto científico, tornando a compreensão final muito complicada. Enquanto a professora explicava, eu era frequentemente a única que prestava atenção enquanto outros conversavam, desenhavam ou dormiam. Porém, eu não gostava de fazer os exercícios e sofria muita repreensão, chegando a ser considerada uma aluna-problema, fazer visitas frequentes à Diretoria, receber algumas suspensões e repetir de ano duas vezes.

Durante este período eu vivi uma grande confusão interna, pois era tratada como uma pessoa de baixo intelecto. A minha pobre mãe, a qual eu adoro citar aqui no blog, sofreu muito durante o meu período escolar. Eu simplesmente não me adaptava ao sistema e ela, apesar de ser professora, não podia fazer muito para me ajudar. O que mais me intrigava era que a minha mãe, que apesar de amável sempre foi muito severa, não ficava brava de verdade comigo. Ela ficava irritada com tantas advertências e com as frequentes vezes em que era chamada à escola, e ficava triste por mim, por saber que vivia em um ambiente hostil. Mas no fundo, eu notava que ela sabia que eu estava indo bem, apenas sob uma outra perspectiva.

Já adulta, posso hoje olhar para trás e compreender a minha vida escolar sob um parâmetro mais analítico e realista. Eu nunca fui um aluna muito boa ou muito ruim, apenas entendia as coisas e me expressava de maneira diferente. Em matérias pelas quais me interesso, como História, Geografia, Inglês ou Português, eu apenas prestava atenção às aulas e tirava boas notas. Já em Biologia, Artes e Esportes, eu era, digamos, medíocre. As minhas notas eram medianas, mas suficientes para passar de ano. A coisa fica feia quando chegamos às Exatas. A Matemática (e aqui incluo a Física e a Química, já que destas matérias aprendemos basicamente a calcular) foi selecionada, cortada, compactada e enlatada para tornar-se “mais fácil” para os alunos, já que o universo matemático vai muito além das fórmulas que aprendemos na escola. Até hoje, eu não faço idéia do que são essas fórmulas, nunca fiz uma e não sei do que se trata. Eu consigo muitas vezes alcançar resultados corretos, mas não consigo passar o processo do cálculo para o papel. Professores não tinham paciência comigo e me tratavam como uma pessoa desinteressada e sem futuro, ao invés de estimular a minha capacidade.

O que se espera do aluno? Que ele siga instruções à risca e se adapte aos padrões impostos ou apenas que ele aprenda, seja qual for o meio que ele utiliza para isso? Maria Montessori foi uma educadora italiana que criou o método Montessori de ensino, método este que respeita o desenvolvimento psicológico natural de cada criança, sendo comum a mistura de crianças de diferentes idades em uma mesma classe, bem como maior liberdade de escolhas. O método Montessori, assim como o método utilizado nas escolas Waldorf e mais alguns outros exemplos similares, vem para mostrar que o padrão do método de ensino pode ser quebrado, sem prejudicar o processo de aprendizagem dos alunos. Porém, não apenas a educação básica é vítima desta padronização.

Quando cheguei à Alemanha e descobri que, apesar de ter curso superior, o meu diploma não me habilitava a entrar direto na faculdade, nem mesmo para começar um curso do começo, fiquei extremamente decepcionada. Fui direcionada para o Studienkolleg, um curso preparatório para universidade (para o qual tive de passar com alta pontuação em uma prova de alemão) e que tem duração de um ano. É inevitável sentir-se discriminada, como uma reles imigrante do terceiro mundo que é burra demais para atender a uma universidade alemã. Todavia, logo no primeiro dia, aprendemos que os alunos estrangeiros que fazem o preparatório possuem chances mais altas de terminarem o curso, além de terem notas melhores do que os outros que não o fizeram. Por quê? Por que fazer faculdade na Alemanha não é bolinho. Aqui, os professores existem apenas para lhe passarem a matéria, organizarem seminários, corrigirem provas e trabalhos e para ficarem à disposição para dúvidas. Todo o seu rendimento dependerá do seu próprio esforço, e não dá para fazer trabalho em grupo para recuperar nota. Você, como aluno, tem a obrigação de ir bem em todas atividades, pois se for mal, não poderá prosseguir para o próximo semestre. E se tiver apenas notas médias, se formará com uma nota média, o que lhe impedirá de fazer um mestrado ou até de arrumar bons empregos, já que a sua nota final da faculdade deverá constar em seu currículo. Em época de prova, você não irá encontrar ninguém no bar, pois todos estarão na biblioteca. Nem mesmo em casa eles estudam, pois sabem que as distrações são muitas. Isso porque o modelo presencial, aonde os alunos devem ir todos os dias à Universidade para assistirem às aulas, palestras e seminários, só foi implementado na Alemanha para que o país pudesse fazer parte do Processo de Bologna, um acordo que impõe um padrão de estudos às Universidades européias para que todos os diplomas tenham o mesmo nível e sejam aceitos entre si. Antes do Processo de Bologna, as universidades alemãs exigiam presença apenas em alguns seminários e nas provas, sendo restante do conteúdo estudado em casa e nas bibliotecas das universidades de maneira independente.

O caso do modelo Montessori para educação básica e do sistema de auto-disciplina aplicado às universidades alemãs são apenas alguns exemplos que demonstram o sucesso da liberdade e da aplicação do conceito da responsabilidade no que tange a questão da Educação. Quando olho para trás e revejo os meus tempos de escola e universidade, vejo um sistema burro e repetitivo, onde todos os que estavam na minha turma, tanto os dedicados quanto os que tinham dificuldade e os alunos-turistas, receberam o mesmo diploma. A razão para isso é que fomos todos padronizados através de atividades simples e superficiais, estando constantemente sob a supervisão dos professores, não sendo estimulados a questionar, solucionar, pensar por nós mesmos.

Se você é um dos que acreditam que a supervisão é necessária para que haja bom rendimento, reavalie os seus conceitos, pois as estatísticas mostram exatamente o contrário. Isso vale para os que querem começar em uma nova profissão, para aqueles que querem se especializar, para os que têm filhos com dificuldades na escola, ou mesmo para aqueles que querem simplesmente estudar em casa, por prazer. As instituições de ensino podem lhe direcionar, solucionar dúvidas e lhe manter atualizado, mas não pense que elas podem lhe transformar em um bom profissional. Isso só você pode fazer.

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Alter-ego virtual

Na internet sou pastor, político e putanheiro
Falo bem do amor e mal do dinheiro
Aviso os amigos quando vou ao banheiro
 
Aqui eu falo o que não devia
Acredito na anarquia
Exagero na putaria
 
Checo todos os updates
Faço férias nos States
Sou amigo do Bill Gates
 
Horas faço-me de são e outras de drogado
Umas de maldito e outras de engajado
Espero que todos tenham acreditado…
 
 

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Nós Tomamos, Vós Lucrais, Eles Riem

Dor de cabeça? Pílula. Cólica? Pílula. Dor muscular? Pílula. Febre? Pílula. Dor de estômago? Pílula. Nariz escorrendo? Pílula. Prisão de ventre? Pílula. Fadiga? Pílula. Alergia? Pílula. Depressão? Pílula.

Esse é o approach da medicina ocidental. Em cada casa, em cada escritório, em cada bolsa de mulher e às vezes até no carro, encontramos a tal farmacinha. Ali tem de tudo: analgésicos, antifebris, descongestionantes nasais, energéticos, relaxantes musculares e muito mais. Em viagens, não pode faltar. Assim que bater o mal-estar, basta “dropar” uma bolinha e em breve ficará tudo bem. A automedicação ocorre diariamente em trabalhos, escolas, lares e até em situações sociais, fazendo com que aceitemos este comportamento como se fosse normal.

O que há de errado em se automedicar? Bom, comecemos do começo. Porque você está doente? Porque você tem dores freqüentes? Nada disso é natural. Ninguém simplesmente adoece assim, sem motivo. Se você tem qualquer sintoma de qualquer coisa, é porque está fazendo algo errado com a sua saúde, pois mesmo doenças transmissíveis como a gripe terão dificuldade em se reproduzir em um corpo saudável. A maioria das pessoas que conheço tem dores de cabeça e apresentam cansaço físico e mental quase diariamente. Algumas delas passam dias sem ir ao banheiro e vivem com as costas doloridas. Solução? Pílulas.

A medicina ocidental, apesar de possuir o conhecimento e a técnica necessários para a prevenção de tais doenças, optou por concentrar-se nos efeitos colaterais e em como apaziguá-los de maneira eficiente. Quando fui ao médico há dois meses e reclamei de dores na região da bexiga e dor ao urinar, o médico me disse o seguinte: ” A Srta. está com infecção urinária. Irei lhe prescrever um antibiótico que deverá tomar por 5 dias, e lhe peço que me visite na próxima semana para que eu possa saber se melhorou. PRÓXIMO!”

Como assim? Ele nem quer saber por que eu tenho infecção urinária? Desde quando é natural que uma garota jovem tenha infecção urinária? Eu fiz algo errado. Não coloquei casacos suficientes em alguma noite de inverno, não estou dormindo direito, comi alguma coisa errada, bebi demais? Não sei, porque o médico não está preocupado com a origem do meu problema, ou mesmo em me educar para que eu não adoeça de novo. O que ele quer é que eu continue adoecendo, para que eu continue o visitando e continue precisando dos tais remédios que ele prescreve, sustentando assim a milionária indústria farmacêutica, que mais parece ocupar-se em nos manter doentes para aumentar os seus próprios lucros. Ou talvez ele até esteja preocupado, mas me acha burra demais para entender o funcionamento do corpo humano, já que esta é a profissão mais elitizada de todos os tempos. Esta parece ser uma visão radical, mas foi a única resposta que encontrei para o enigma do processo de desinformação pelo qual somos submetidos com relação à nossa saúde.

Não quero colocar toda a responsabilidade da nossa sociedade doente nas costas da classe médica ou da indústria farmacêutica, já que é mais do que sabido que as pessoas raramente seguem as dietas e recomendações passadas pelos seus médicos. Porém, eu, que estou interessada em melhorar a minha qualidade de vida e evitar doenças, não encontro essa oportunidade na medicina ocidental. Aqui, o que impera é a política do damage control e do ciclo vicioso, onde cada grupo de pessoas depende do outro para sobreviver, sendo o tema Saúde muitas vezes deixado de lado para dar lugar ao Marketing, Consumismo e Comodidade.

Já sofri muito preconceito por não tomar medicamentos. Em meus empregos era sempre igual, todos podiam reclamar de dor de cabeça e fazer cara feia, menos eu, que quase nunca tinha nada. Se me batia uma cólica, eu tinha que ficar quieta, não podia abrir a boca. Sabe por quê? As pessoas diziam que eu não tinha o direito de reclamar, pois não havia tentado solucionar o meu problema. Diziam que, se eu gostava de sofrer, que o fizesse calada. Também já fui mal-tratada por muitos médicos que, ao ouvirem-me dizer que não estou interessada em receita para medicamentos, me respondiam “O que a Srta. está fazendo aqui, então?”. O que eu queria era saber como fortalecer o meu organismo, como evitar aquela doença no futuro, ou saber se ela não estaria em estágio avançado demais, prejudicando o meu corpo de outras maneiras. Nenhum dos médicos para os quais eu disse isso tentou me ajudar. Nunca.

Eu não sou contra medicamentos. Compreendo a importância dos avanços científicos na área, que tornam a nossa vida mais longa e segura. Um bom exemplo desta dualidade são os medicamentos antifebris. A febre é um mecanismo importantíssimo de defesa do corpo. Quando um vírus, peguemos a gripe como exemplo, lhe atinge, ele começa a se multiplicar e a enfraquecer as suas células saudáveis. Enquanto isso acontece, você não sente nada. De repente, o seu corpo percebe o perigo e começa a combater o vírus, eliminando as células contaminadas e lhe deixando enfraquecido e dolorido. Ou seja, quando você começa a sentir-se mal, significa que o seu corpo está reagindo. Quando o vírus também está bastante enfraquecido, o corpo lança a sua arma final: a febre. Ao aumentar levemente a temperatura do seu corpo, o já enfraquecido vírus provavelmente irá morrer, e você irá começar a se recuperar lentamente, até que o seu corpo substitua aquelas células por outras novas e saudáveis e você esteja curado. Mas isto é teoria. Na prática, o que as pessoas costumam fazer é tomar um antifebril, o que acaba muitas vezes fortalecendo o vírus. Se você está se perguntando por que então existem medicamentos antifebris, a resposta é muito simples: uma febre muito alta ou muito longa pode danificar certos órgãos do seu corpo, podendo inclusive ser fatal. Quando um vírus ou bactéria são fortes demais e o seu corpo sozinho não está conseguindo combatê-los, está na hora de ir ao hospital e tomar um medicamento antifebril, e tentar combater a doença de outras formas e sob supervisão médica.

Outro caso são as dores. Seja de cabeça, de estômago, de junta, muscular ou qualquer outra, as dores são sintomas de que algo está errado com o seu corpo. Ao tomar um medicamento e maquiar esta dor, você não estará eliminando a sua causa. Por exemplo: se você tem dores de cabeça diariamente porque ingere muito açúcar, você continuará o ingerindo, pois os medicamentos que toma escondem os efeitos colaterais e o impedem de tomar uma atitude mais eficiente. Com o tempo, eles não farão mais efeito e você passará a adoecer por conta deste péssimo hábito, diminuindo consideravelmente as suas qualidade e expectativa de vida. Remédios pós-ressaca também são um absurdo, já que você não mais precisará controlar o seu consumo de álcool, por saber que poderá esconder a dor com uma pílula. Se não houvesse nada para apaziguar a sua dor, você iria controlar-se mais e beberia como um adulto. A ressaca é motivo de piada na nossa sociedade, mas é uma intoxicação grave. Beber até o ponto de danificar o funcionamento de um órgão não tem graça nenhuma.

Bom, já vimos que o consumo inconsequente de medicamentos nos torna ainda mais doentes, além de preguiçosos. Querem mais motivos? Pois há muitos, tantos que não sei se poderei abordar todos neste post. Mas para dar alguns exemplos, podemos citar a grana que você gasta com eles. Além de empobrecer, você ainda enriquecesse uma indústria que usará o seu dinheiro para tentar vender-lhe mais dos seus produtos, fazendo com que gaste mais dinheiro com eles, etc. Podemos citar também a diminuição da sua resistência, já que suportar uma simples dor de cabeça parece algo de outro mundo. Fico intrigada com o fato de que as pessoas não se importam se estão saudáveis ou não. Para mim, é um absurdo tomar um medicamento em situações não-emergenciais, pois perco o controle sob o meu próprio corpo. Se estou com dor de cabeça, quero senti-la, saber em que parte da cabeça se localiza, a sua intensidade, a sua duração. Quero saber a que horas e em que situações ela costuma vir e aprender assim a evitá-la. Assim que ela passa, sei que o meu corpo está agora mais saudável, e não drogado.

Falando em drogado, chegamos a um tema interessante. Drogas. Porque é que nos vendem tantas drogas assim, em promoção de “leve 3, pague 2”, em jornalzinho de anúncio? Estas são drogas pesadas. Você pode achar engraçado que eu diga que um Tylenol é uma droga pesada, mais saiba que se você tomar 8 de uma vez, poderá morrer. Se for uma criança então, provavelmente irá morrer. Se você fumar 8 baseados, tomar 8 pílulas de Ecstasy ou 8 LSDs (desde que puros) você não irá morrer. Isso lhe diz alguma coisa?

Você está sendo levado à falência, à degradação física e mental e ao túmulo. Você está sendo bombardeado de notícias, novas descobertas e tendências, que o confundem a ponto de não saber mais o que é e o que não é saudável. Ovo faz bem ou mal? Alimentos crus são mais saudáveis que cozidos? Não preciso de proteínas? É mesmo de enlouquecer. São tantos os direcionamentos na área da saúde, que fica difícil saber se estamos fazendo as coisas direito, já que para alguém, sempre estaremos fazendo errado. A macrobiótica, por exemplo, diz que devemos comer basicamente alimentos crus. Já a medicina chinesa, diz que alimentos crus podem ser intoxicantes e nos indica a diminuir consideravelmente o seu consumo.

A minha sugestão é que use o seu bom-senso, se você tiver. Ao escolher uma filosofia de vida para guiar a sua saúde, considere os fatores ambientais. Os hábitos alimentares dos povos da Sibéria provavelmente não se adéquam às nossas necessidades num país tropical. Outro fator importante é observar a saúde daqueles que seguem a dieta. Algo que acho engraçado são as dietas americanas, que figuram no topo da lista das dietas mais populares. Como alguém pode seguir as dietas de um povo cuja população é a menos saudável do mundo? Baseada neste princípio foi que escolhi para mim a medicina chinesa. Os chineses são muito saudáveis, possuem uma das maiores expectativas de vida do mundo e devem lidar com temperaturas extremas, como nós. Assim que passei a aplicar alguns dos princípios em meu dia-a-dia, senti-me imediatamente melhor, e a tendência é melhorar ainda mais com o tempo. Buscava algo que eu pudesse seguir suavemente, sem limites ou proibições, apenas educando o meu paladar e o meu corpo a fazerem escolhas melhores. Porém, somos todos diferentes e talvez você não goste da medicina chinesa, mas prefira alguma outra filosofia. Tudo bem. Não importa qual é a melhor, ou mesmo SE há uma melhor, o que importa é que cuide da sua saúde.

 Se você sofre de mal-estar, dores freqüentes, fadiga e stress, comece do começo. Diminua a sua ingestão de açúcar e farinha de trigo refinados, tome cuidado com o excesso de sal, não coma em restaurantes diariamente, beba água, tome chás de ervas, aumente a variedade de vegetais na sua dieta, cozinhe mais, procure ingerir todos os tipos de sabores (doces, salgados, azedos, amargos), compre alimentos orgânicos (se você acha que eles são muito caros, coma menos. Você provavelmente come mais do que precisa, anyway…ou use o dinheiro que você irá economizar com os remédios, dos quais não mais precisará). Isso só tem cara de dieta, mas não é. Essa sua compulsão por doces, pães e alimentos pesados não acontecem naturalmente, são apenas os parasitas e fungos que vivem em seu corpo lhe pedindo comida. Pois é. Você, como grande parcela da população dos países industrializados, está provavelmente infestado de fungos e parasitas, que proliferam com a ingestão excessiva dos alimentos que o pedi para evitar. Esse desejo de comer besteira são eles, não você. Pessoas saudáveis não sentem isso, pelo menos não com tanta freqüência e de maneira incontrolável. Além do mais, eles se alimentam dos poucos nutrientes que você ingere, o deixando enfraquecido, suscetível a doenças e feio, já que eles também são culpados pelas suas olheiras, pele feia, queda de cabelos e aquela bolha que você chama de barriga.

Vai ao médico dizer que está com parasitas? Ele vai te receitar uma pílula. Você vai tomar e, em poucos dias, estará livre deles. Algumas semanas depois, eles já terão se proliferado novamente, já que você continua criando o ambiente perfeito para eles viverem e ainda os alimenta como uma mãe-coruja. Não adianta tentar fugir: está na hora de mudar. Todos os medicamentos que você precisa estão no supermercado e a sua nova bula é o seu livro de receitas. A saúde e o equilíbrio ocorrem de dentro para fora, e não de fora para dentro, como querem que você acredite. Encontre dentro de você o estopim que lhe dará forças para melhorar a sua vida e livre-se de uma vez por todas da sua farmacinha. Depois volte aqui e conte-nos a sua história de sucesso 🙂

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Revista Pittacos

Hoje foi publicado o meu primeiro texto como colaboradora da Revista Pittacos. Se tudo correr bem, haverá uma publicação de minha autoria por mês. A Revista é interessante e aborda temas de todos os tipos, sem censura e sem preconceito. Dêem uma olhadinha!

http://revistapittacos.org/2012/02/14/quer-ficar-rico/

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Why I don’t shop in discount markets

As my position of not buying in discount markets is often taken as radical, I decided to clarify what is it that motivated me to take this decision and, perhaps, approach this subject from a new point of view.

Most of the people I know, I would even say practically all of them, are regular costumers of discount markets. Some have a preference for a specific one, others just go to the closest or the one with the best offers. When the subject comes up, like if I’m planning to cook with a friend and we should go shopping together and I mention I would like to go to another place to get the goods, my comment is hardly ever well received. I’m promptly confronted with arguments like “They have many biological products”, “You can buy only healthy stuff if you like”, “They are only cheaper because they keep it simple, it doesn’t affect the quality of the food” or even the most known one “That’s the only thing I can afford!”. And if you look at things from a personal perspective, these arguments are in fact true, with exception of the last one.

It is a mistake to think I don’t like discount markets because I believe their food is of bad quality. They do sell a lot of shit, but if you’re picky enough, you will make the best out of it, like with everything in life. You also have to do that in normal markets anyway. The first time I’ve been in a discount market was in Brazil, when the Spanish chain “DIA” decided to bring that horrible habit overseas. At first, I thought it was a great idea to get rid of the whole marketing aesthetics and to optimize space in order to lower costs and make products more available to the ones who can’t afford it. It sounded like a simple and democratic idea. Since in Europe this trend is heavily installed, here I could get a better view of the consequences of this change upon society.

In my first months in Germany, I was also buying in discount markets, like everyone I know. It made all the sense for an underpaid student and it didn’t even cross my mind to do otherwise. I can’t say the messy piles of cheap junk food didn’t bother me since I’m a very visual person, but I tried to convince myself it was all part of the game. I also wasn’t very fond of the huge lines and the crankiness of the cashiers, but, you know…it was fucking cheap.

The first time I started reevaluating the whole thing was when I realized the amount of trash I was producing from all my food’s packaging. It was a lot more than I was used to and, although I carefully separated the materials for recycling, I was still aware that the recycling process itself is quite polluting, and that the best we can do is to avoid producing garbage in the first place. Recycling is often used as an excuse for producing endless amounts of trash, and people completely ignore the costs and trouble the whole process brings.

From this point on, things started to get nasty. Every time I went to a discount market, I started to pay attention to all kinds of stuff I was ignoring before. One of them is the clients themselves. They are very often fat and pale, the type of people you would expect to bump into in a line for receiving government’s allowance. Immigrants and people wearing uniforms for minor jobs are also quite common (separatist elite concepts like these are things I am strongly against). They’re usually carrying bags full of industrialized meat, sweets, packed white toast bread and sugary drinks, which is what makes them look fat and pale in the first place. I also noticed these markets tend to have some strange brands that you can only find there. Looking more closely, I could also realize the whole purpose of their existence: quantity wins over quality. This is why I said earlier that I disagree with the argument that it is cheaper to buy in discount markets.

The truth is it isn’t cheaper. Because a half kilo package of yellow tasteless processed cheese costs 99 cents, you take three packages and eat like a pig. If you go to a cheese store, with 2,97 Euros you can buy a small piece of a good quality cheese of your choice. Moreover, you will be supporting a small family business, instead of a blood-sucking international chain that employs people for miserable salaries and triple amount of work and that will treat you like a dog, as a consequence of their unhappiness. So, in the end, you will not only NOT be saving money, but you’ll also be eating more than you need. Let’s not forget the clothes and objects they sell, which are mainly produced in countries that enslaves children and pay a few cents per day to the workers, are most commonly composed by plastic in all its forms (polyester, acrylic, etc) and generally last very little, forcing you to buy more and more of their shit, spending a lot of money and producing more garbage to our already overburdened world.

For me, discount markets represent everything I’m against. They are not ecological, not social, not equalitarian, have no interest on people’s health. The only thing they try to do is to convince you to buy the biggest possible amount of trash so they can keep on getting richer and opening more stores, to keep getting richer and opening more stores…it’s a snowball effect, at the cost of people’s money and health. Since I changed back to buying in smaller local shops, my health has improved and I don’t spend more money than I did before, and I also don’t have to starve. I feel a lot less compelled to buy sugary or salty treats, since they aren’t jumping at my face at every two meters. In local shops, food tends to be fresher and have less industrial additives, and you will almost certainly be greeted and served in a friendly way, and designed to fit your needs.

This text isn’t calling people for a massive discount market boycott. No way. I’m actually glad they exist. As the pre-Socratic philosophers would argue about if they were alive: the old man in the vegetable stand wouldn’t treat me so well and his tomatoes wouldn’t taste so good if there wasn’t bad food served by sour people in the first place, simply because I wouldn’t have anything to compare it to. Furthermore, I believe all kinds of stuff should exist, to allow us to make our own choices. My only advice is that you analyze real facts before making such decisions, instead of just picking some arguments that sustains the result you want and leaving all the others behind. That’s how religion works, but we can leave this for another post 😉

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Do amor ao asco: A história de um fiasco

Lá vai Marta, descendo a ladeira. Ela gosta deste trecho do caminho ao trabalho, pois não precisa se esforçar para se mexer, deixa apenas que a gravidade a impulsione. Andando sem balançar os braços e com os olhos fixados no nada, nem escutou quando o Seu Neco a cumprimentou, como faz todos os dias quando a vê passando em frente à sua lojinha de doces.

Marta havia perdido o apetite pela vida. Desde que o seu relacionamento-relâmpago de três meses com Alfredo terminou, ela não penteava mais os cabelos, não passava batom e não lavava as suas roupas. Por sorte, ela trabalha no setor de criação de uma agência publicitária e ninguém percebeu a mudança.

Alfredo era o homem de seus sonhos. Ela o conheceu na barraca de algodão-doce do parque de diversões da cidade, quando levou a sobrinha para andar de carrossel. Alfredo estava lá, encostado no balcão de metal da barraca, conversando com o vendedor. Ela chegou perto para comprar um algodão-doce e, ao esbarrar em suas costas, sentiu um aroma inebriante, que ela classificou como “cheiro de floresta”: amadeirado, fresco, forte e selvagem. Ela contou isso para ele depois e ele achou graça. Alfredo logo começou a flertar com Marta e, quando a pequena sobrinha perdeu a paciência e começou a correr para lá e para cá, eles tiveram que interromper a conversa. Marta já estava vermelha e toda manhosa quando Alfredo pediu o seu telefone. Ela gostava de fazer um charminho nessas situações, mas dessa vez, não deu tempo. Falou o telefone de uma vez e correu para procurar a sobrinha.

Para o desespero de Marta, Alfredo demorou cinco dias para ligar. Ele a convidou para ir ao cinema e, durante a sessão de uma comédia romântica hollywoodiana recheada de gente magra e bonita, tudo deu certo no final, assim como no filme: eles se beijaram. Desde então, passaram a se encontrar com freqüência e logo começaram a namorar. Marta era cegamente apaixonada por Alfredo e Alfredo…gostava de Marta. Estavam sempre passeando, indo à praia nos fins-de-semana, assistindo a filmes idiotas, comendo besteira de madrugada e falando bobagem. Quando, um dia, Marta disse a Alfredo que estava na hora que ele conhecesse os seus pais, ele ficou estranho. Nunca falava da família dele e Marta não sabia por que, e agora ele não queria saber da família dela.

Alguns dias após a discussão sobre o jantar com os pais dela no domingo seguinte, Alfredo enviou-a um SMS:

“Martinha, andei pensando sobre nosso namoro. Acho que não vai dar certo. Não fique triste, o problema não é com você, eu é que estou confuso. Espero que possamos ser amigos.”

Marta leu a mensagem e, com as pernas bambas, precisou encostar-se na parede para não cair. A sua respiração ficou curta e ofegante e ela não sabia se deveria responder. Resolveu ligar, mas caiu na caixa postal. Ela tentou outras 37 vezes, torcendo para que a linha estivesse apenas ocupada, mas logo caiu na real de que ele havia desligado o telefone assim que enviou a mensagem.

Desde o dia fatídico, Marta vinha se arrastando pelas ruas e corredores como um corpo sem alma. Ela não quis trocar a roupa de cama, pois Alfredo havia se deitado nela, e ela jurava que ainda sentia o “cheiro de floresta”, mesmo quando a sua irmã dizia que só sentia cheiro de suor ressecado. Em um jantar com as amigas na casa da Roberta, percebeu que as meninas faziam de tudo para animá-la e desviar a atenção do “saco de merda”, novo apelido que elas deram ao Alfredo após o vergonhoso término via mensagem de texto. Em meio às risadas, Roberta levantou-se e foi à cozinha para buscar mais uma garrafa de vinho. Quando abriu a porta da geladeira, um cheiro insuportável de comida podre espalhou-se pela sala.

          Ju: Nossa! Quem morreu?

          Pri: Chama um padre! Os caça-fantasmas! Alguém acuda!

          Marta: Sabe que eu…

          Thaís: Você o que, Martinha? Lembrou do peido do Alfredo?

As meninas caíram na gargalhada. Não era isso que Marta ia falar, mas a piada da Thaís a lembrou do dia em que ela e Alfredo estavam no carro, quando de repente, Alfredo peidou. Ela achou estranho na hora, mas como ele não esboçou nenhuma reação, ela achou que este talvez fosse um bom sinal, de que ele agora sentia-se à vontade perto dela. Ela sentiu um aperto no peito e lamentou não tê-lo por perto.

Marta não suportava mais sentir-se assim. Ela sabia que deveria dar um basta neste estado de depressão em que se encontrava, antes que consumisse toda a sua energia. Precisava aumentar a sua auto-estima e retomar as rédeas de sua vida. Marta decidiu fazer o que todas as mulheres fazem quando em recuperação de uma decepção amorosa: cortar os cabelos e comprar sapatos novos. Ela, que sempre considerou este comportamento fútil, hoje entende que é na verdade um passo importante na busca por uma nova identidade, um novo começo, a remoção cirúrgica de um passado indesejado. Para entrar com o pé direito em uma nova vida, nada melhor do que um novo “eu”. O dia seguinte foi reservado para um dia de beleza, com direito à esfoliação, hidratação da pele e cabelos, manicure e pedicuro, máscara de argila e limpeza de pele. Quando Marta aproximou-se do espelho de aumento para começar a eliminar os cravos de seu rosto, hesitou. “Estes cravos estavam lá conheci o Alfredo…eles viram tudo” disse ela.

Marta olhou para o espelho e viu o seu rosto com aquela expressão tristonha. A frase que ela acabara de dizer estava ressoando alto, como se as paredes houvessem lhe arremessado as palavras de volta, de tão tolas que eram. “Os cravos estavam lá quando conheci o Alfredo? Que porra é essa? Eu enlouqueci?”. Uma porção de imagens lhe veio à cabeça, quase na velocidade da luz. Ela lembrou-se da cena na casa da Roberta, quando o cheiro de peido a fez lembrar-se dele com nostalgia. Lembrou-se do dia em que Alfredo chegou do futebol com cheiro de azedo. Lembrou-se de quando eles chegaram em casa após uma corrida no parque e ele tirou o tênis, empesteando o apartamento com aquela fuduca. Lembrou-se de uma espinha bizarra que ele tinha nas costas e não tirava, nem deixava ninguém chegar perto. Lembrou-se de uma verruga gigante e peluda que ele tem no braço e que ela sempre esbarrava quando estavam dormindo de conchinha. Lembrou-se de um pêlo que saía do nariz dele e que ela não entendia por que ele não cortava. Lembrou-se de uma cueca suja que encontrou no chão do banheiro e que não lhe saiu mais da cabeça. “Blaaaargh”, disse ela em voz alta, enojada. Marta correu para a cama e arrancou os lençóis, os enfiou na máquina de lavar, colocou o dobro de sabão no dosador e ajustou a temperatura máxima. “Ai que nojo, ai que fedor, ai que horrível!” exclamava ela, enquanto esfregava um paninho com desinfetante em tudo em que ele havia encostado.

Alguns dias depois, Marta foi à sua cidade natal para visitar os seus pais. Como sempre, a sua mãe assou um bolo de fubá cremoso, favorito da Martinha. Enquanto conversavam sobre coisas como a alta do preço do feijão e o Alzheimer da avó, a sua mãe lhe perguntou: “E aquele moço, o Alfredo, no que deu? Desde que você cancelou aquele jantar, não fa…nossa filha, que cara é essa? Parece que chupou limão!”

Marta: “Ai credo mãe, não fala desse cara quando eu estou comendo!”

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Estou com frio

Ontem fui ao centro tomar um café com um amigo. Combinamos de nos encontrar em frente a uma igreja famosa, que fica próxima à saída do metrô. Cheguei um pouco antes e precisei esperar 3 minutos por ele, o que me deixou extremamente mal-humorada. Você deve estar pensando que eu sou uma nojentinha arrogante por ter ficado irritada por um atraso de 3 minutos, mas eu tenho um bom motivo: o frio.

No trem, à caminho do nosso ponto de encontro, cometi a burrada de checar a temperatura atual no meu celular. Não sei para quê eu fiz isso, já que não havia nada que eu pudesse fazer e eu teria que ir de qualquer forma, mas eu fiz. O termômetro marcava -14°C. Se você já ficou paradinho de pé esperando alguém com essa temperatura, você sabe que 3 minutos são suficientes para que o frio ultrapasse todas as camadas de roupa, de pele e de banha e atinja os ossos. O meu amigo chegou.

Tivemos que caminhar 3 quadras até a biblioteca da universidade para que ele buscasse um livro que havia encomendado, e mais 2 quadras para chegarmos ao café que queríamos. A essa altura, eu já não sabia mais o que ele estava falando. O frio havia penetrado cada centímetro do meu ser e eu comecei a ouvir um zumbido de longe. „Deve ser o meu tímpano se petrificando“, pensei. A pele do meu rosto doía tanto que tive a sensação de que alguém havia encostado um isqueiro aceso nas minhas bochechas. Finalmente chegamos ao café, e quando abrimos a porta, sentimos aquele delicioso bafinho quente saindo dos aquecedores, que agem como pequenos choques pelo corpo, relaxando os músculos e nos deixando com um soninho gostoso.

 A caminhada de 5 quadras até lá não foi fácil. Eu carregava apenas a minha pequenina bolsa, com a minha carteira, chave e mais algumas besteirinhas, mas sentia-me como se um obeso mórbido estivesse fazendo „cavalinho“ no meu ombro. Com 3 calças, 2 blusas de lã, 2 casacos, 2 xales, 3 meias, bota e gorro forrados com lã e luva grossas, a impressão que tinha é que estava caminhando em areia movediça. Cada passo, e parecia que estava cada vez mais longe do café. Para piorar, tinha uma vozinha estridente na minha cabeça, dizendo „Mãe, tá chegando?  Tá chegando, mãe? Já chegamos? Quantos minutos faltam?“. Acho que a voz era a minha própria, que ficou gravada em algum lugar remoto no centro de memória do meu cérebro após uma sessão de importunação à minha mamãe, há muitos anos atrás.

Pedi um chocolate quente e, ao invés de tomá-lo, ficava esfregando a xícara no meu rosto, no meu pescoço, na minha barriga, no meu joelho, etc. O meu amigo me alertou que eu não deveria fazer isso, ou sentiria ainda mais frio quando saíssemos. „MAIS FRIO? Chama um médico!“, foi o que eu respondi. Após uns 20 minutos de blablabla, quando comecei a sentir o dedo mindinho do pé esquerdo de novo, era hora de sair. Começou tudo de novo. Meu amigo foi embora e eu decidi colocar o fone de ouvido e escutar um som, para esquecer a minha tristeza. Coloquei no random e começou a tocar „Samba de Orly“.

“Vai meu irmão, pega esse avião
Você tem razão de correr assim desse frio
Mas veja o meu Rio de Janeiro
Antes que um aventureiro lance mão.
Pede perdão pela duração dessa temporada
Mas não diga nada que me viu chorando
E pros da pesada diz que eu vou levando
Vá ver como é que anda aquela vida à toa
E se puder me manda uma notícia boa“

Eu chorava igual criança. Até que foi bom, pois as lágrimas quentinhas acalmavam o meu rosto congelado. Quando entrei na lojinha do feirante perto de casa, ninguém percebeu que eu estava chorando,  já que todo mundo estava com o rosto vermelho por causa do frio. Na hora de pagar, a simpática senhora perguntou-me: „Você vai para casa agora?“, eu disse: „Sim“. Ela disse: „Ótimo, pois se você não fosse, iria lhe sugerir que viesse buscar a salsinha mais tarde, para que ela não congele no caminho. Mas neste caso, vou embrulhá-la bem e vamos torcer para que não dê tempo. Fresquinha é mais gostosa!“. Eu comecei a chorar de novo.

Corri para casa o mais rápido que pude, e quando cheguei à porta, precisei tirar a luva para procurar a minha chave. Sentia como se pequenas agulhas estivessem penetrando no meus dedos e, quando finalmente achei a chave, não conseguia enconstar nela, pois estava praticamente congelada. Quando peguei o meu celular para ver as horas, o visor estava suado como uma jarra de suco na geladeira, então deixei para lá. Entrei em casa e corri para debaixo das cobertas. As crianças me viram chorando e me trouxeram chá, bolsa de água quente, deitaram comigo e me abraçaram até eu pegar no sono.

E é assim sempre, toda vez que preciso comprar um pão, ir para o trabalho, sair com os amigos. O verão brasileiro pode muitas vezes parecer insuportável, mas pelo menos é divertido. Com esta temperatura, a Alemanha parece um cemitério gigante, vazio e escuro, silencioso e deprimente, aonde se vê poucas pessoas, e estão sempre andando rapidinho, querendo estar em casa. Há meses eu não vejo um cotovelo, um pescoço, uma coxa.

Eu quero a minha casa!

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