Posts Marcados estado

As palavras mais mal-interpretadas do século

Ok, talvez eu tenha exagerado um pouquinho no título…até porque, aqui só poderei citar algumas delas. Mas quem é que não se cansa com tanta interpretação mal feita por aí?

Na era da comunicação, as informações são trocadas na velocidade da luz, e o efeito-telefone-sem-fio acaba fazendo com que certas palavras, geralmente utilizadas para demonstrar engajamento político e social, tenham o seu significado deturpado. A interpretação é um importante meio para a compreensão do mundo e nos é ensinada na escola, naquela aula de literatura a que ninguém presta atenção. Se você já se encontrou confuso perante alguma discussão internética do tipo PT x PSDB, talvez já tenha sido vítima da malvada má-interpretação. Cada um fala uma coisa e não se entendem, parecem falar línguas diferentes, discordam-se em tudo e o assunto acaba terminando com ambas as partes convencidas de que a outra é tão ignorante que nem dá para conversar.

O que é que faz com que as pessoas não se entendam com tanta frequência? Muitos responderiam que o motivo para as constantes falhas na troca de informações é a falta de educação, mas eu rejeito este argumento. Os colegas “estudados” caem nessa mesma armadilha e se envolvem em discussões sem fim e sem sentido, recheadas de preconceito e chauvinismo, e acabam por tirarem conclusões mais mistificadoras do que esclarecedoras. Já em minha humilde opinião, as frequentes falhas de comunicação entre as partes provêm de uma carência aguda na mente do brasileiro: o pensamento científico.

Qualquer um que fez faculdade de qualquer coisa estudou “Metodologia da Pesquisa Científica” ou alguma matéria parecida, mas poucos sabem do que se trata. A carência da compreensão do método científico, que é em minha opinião a matéria mais importante de todas, é o que nos torna menos qualificados e o que faz com que os nossos diplomas sejam mal-vistos no primeiro mundo (não que todas as nossas universidades sejam ruins e todas as do primeiro mundo sejam boas). Como é possível dar andamento aos estudos sem compreender COMO devemos pensar? A Metodologia Científica vem para empurrar o senso-comum para o canto e substituí-lo por considerações analíticas, sem as quais nenhuma ciência é possível. Nos cursos da área de Humanas, damos menos importância a essa metodologia, e é daí (também) que se originam tantas falhas na comunicação. Para aqueles que não querem mais cometer tais erros, deixarei aqui a fórmula mágica para a comunicação perfeita:

DEFINIÇÃO => INTERPRETAÇÃO

Primeiro defina uma palavra ou termo, e só depois o interprete. Interpretar sem antes definir é correr o grande risco de falar besteira. A maioria de nós interpreta uma mensagem de acordo com as nossas próprias experiências, portanto, se eu estiver contando uma história sobre uma tribo indígena para três pessoas diferentes, haverá três interpretações diferentes da mesma história. Uma imaginará um grupo de caçadores e canibais primitivos, a outra uma sociedade cultural desenvolvida e a outra um grupo de pessoas em constante perigo, sob a ameaça de animais selvagens, condições climáticas extremas e o assustador homem branco. Ninguém está errado. A partir daí, começam discussões sem sentido, aonde cada um defende a sua tese e ninguém se entende. Porém, se começarmos com a definição exata da palavra TRIBO, tudo fica mais fácil. Aqui citarei algumas das palavras que são frequentemente alvos da falta de uma definição concreta, e que geram muita confusão:

DEMOCRACIA: Quando se trata do nosso sistema político, a bagunça não poderia ser maior. Cada um tem uma diferente idéia do que é a tal Democracia e o que ela representa para nós. Porém, quase todos a associam com a Liberdade. Quando há injustiça e opressão, muitos levantam a bandeira da Democracia para clamar pelo nosso direito à Liberdade e isso me irrita. Claro que o sistema democrático nos assegura algumas liberdades que não são asseguradas por outros sistemas, ok. Porém, não podemos nos esquecer de que, na prática, não somos nada livres. Não temos o direito de usar drogas, não somos permitidos a andar por aí sem roupa, não podemos dar os ombros para o estado e não sermos contribuintes, mesmo ao alegarmos que somos contra o sistema. O Estado não quer saber se estamos satisfeitos ou não com o que é feito com o dinheiro dos nossos impostos, somos forçados a pagá-los mesmo assim. Quando não cumprimos com as suas ordens, o Estado utiliza-se de coerção, da imposição de penalidades físicas e emocionais, podendo, inclusive, tirar liberdades que a própria democracia nos garante, como o direito de ir e vir. Se há uma palavra-chave que represente a Democracia, esta não é a Liberdade, mas sim a Igualdade (se é isto que ocorre na prática…já é outra história).

ANARQUIA: Ainda na linha de pensamento da política, encontramos uma palavra que, de tão deturpada, a pobre-coitada já teve o seu sentido alterado pelo inconsciente coletivo. A Anarquia costuma ser associada à bagunça, à falta de ordem, e a sua imagem representada por uma grande orgia de corpos nus e embriagados, engordurados pelo banquete real, regada à incesto, violência e caos. Mas no fundo, a Anarquia é apenas a negação de todas as formas de Estado, pois o considera opressor e violento. A Anarquia parte do princípio de que, com uma boa educação moral e ética, não precisamos de um Estado que nos diga o que fazer. Parece um absurdo imaginar um Brasil que, da noite para o dia, não tem mais Estado. Eu mesma, como anarquista, considero isso um absurdo. A Anarquia é um conceito extremamente progressivo, que substitui as ordens superiores pelo uso do bom-senso, o que obviamente não é possível sem uma educação de primeiríssima qualidade. Apesar de soar inatingível, conceitos anárquicos existem e funcionam perfeitamente bem em países escandinavos, aonde, por exemplo, a compra dos bilhetes de transporte público não é controlada. Não há catraca ou sensor, basta entrar no ônibus. Muito raramente irá aparecer um controlador disfarçado e pedirá o seu bilhete de surpresa, lhe aplicando uma multa caso não o tenha (aqui acaba a anarquia). Porém, quando o controlador aparece, quase todas as pessoas têm bilhetes, sendo as exceções raríssimas e quase sempre estrangeiros, que ainda não tem a mesma linha de pensamento da população local. Para eles é simples: a empresa lhes fornece um serviço e eles pagam por ele. Se você os questiona se não sai mais barato nunca comprar um bilhete e pagar a multa de vez em quando, eles dizem que sim, mas que se eles não pagarem, o serviço não terá mais a boa qualidade que tem ou talvez nem exista mais. A idéia é: “Quero usar, devo pagar”. A Anarquia, quando aplicada no dia-a-dia, nos transforma de seres obedientes a seres pensantes. Uma boa analogia para diferenciar a Democracia e a Anarquia é um ônibus lotado: no ônibus, existem assentos preferenciais, que são reservados a pessoas com necessidades especiais e o seu número é calculado de acordo com proporção e probabilidade. Num sistema democrático, se um ônibus com 50 lugares tem 6 assentos especiais e 8 idosos, 2 ficarão de pé, pois a sua quota foi preenchida. Só o fato de que assentos especiais existem já é um limitante intelectual. Para que assentos especiais? Um anarquista cederá o seu lugar a uma pessoa que precise mais, independente daquele assento ser especial ou não, ou de quantas pessoas com necessidades especiais há naquele ônibus. É uma questão de bom-senso (se todos os anarquistas tem bom-senso, aí já começa uma outra discussão). O mesmo conceito, se fosse aplicado a todas as áreas da sociedade, eliminaria a necessidade de um Estado. Pelo fato de que as pessoas são tão diferentes e também tem acesso a diferentes níveis de educação é que a Anarquia se torna um conceito utópico.

AGNOSTICISMO: Taí. Essa eu nunca vi ser usada corretamente. Quando alguém me diz que é agnóstico, eu imediatamente questiono esta pessoa, pois tenho certeza de que ela não sabe o que está falando. Não me levem a mal, isto não é uma questão de arrogância. Mas acontece que quase ninguém sabe o que essa palavra significa e eu não entendo porque a mencionam tanto. Geralmente se auto-intitulam agnósticos aqueles que se livraram dos dogmas da Igreja, mas que ainda mantém uma crença em Deus. Há também aqueles que se dizem agnósticos por acreditarem em Deus, mas por não saberem defini-lo. As definições vão longe. Contudo, qualquer pessoa pode ser agnóstica, independente da sua crença ou não em Deus. A própria etimologia da palavra já explica o seu significado. Gnose é a palavra grega para “Conhecimento”, e o prefixo a é uma negação (ex.: atípico – uma coisa que não é típica). Portanto, a Agnose é a falta de conhecimento. Os agnósticos afirmam que uma discussão sobre a existência ou não de Deus é inútil, já que ninguém poderá provar se ele existe ou não. O agnóstico assume uma posição de constante dúvida, mas isso não os impedem de serem crentes ou ateus. Um crente agnóstico é aquele que crê, mas que não tem certeza se a sua crença tem fundamento. O ateu agnóstico é aquele que não crê, mas que sabe que pode estar errado, apesar de ser impossível provar que sim ou que não. A Agnose não é uma religião, mas sim uma posição que certas pessoas assumem para em uma discussão sobre a existência ou não de um ser divino. Portanto, se alguém lhe perguntar qual a sua religião, não diga que é agnóstico, pois a sua resposta estará errada. Se você não sabe em que acredita, diga que não tem religião e que possui uma visão agnóstica sob este tema.

Eu poderia escrever horas sobre este tema, mas não quero cansá-los. Creio que estes três exemplos tenham dado uma boa idéia sobre o que quis dizer com as problemáticas da definição e interpretação, mas se quiserem sugerir outras palavras, fiquem à vontade para enviarem-me as suas idéias. Mentes pensantes são sempre bem-vindas!

Anúncios

, , , , , ,

Deixe um comentário